Facebook

UM BARCO POUSADO NA SERRA

Escrito por Everton. Publicado em Arquitetura

Apaixonado por madeiras, o arquiteto e designer Sergio Rodrigues projetou na serra fluminense uma casa singular. Parecida com um barco e feita com módulos pré-fabricados de compensado naval e jatobá, tem cobertura e fachadas coloridas que a integram à mata.

02/09/14 - POR CASA E JARDIM (TEXTO MARILENA DEGELO | REPÓRTER DE IMAGEM CLAUDIA BARCELLOS)

 (Foto: Marcos Antonio/Editora Globo)

O telhado verde e as paredes amarelas, verdes e vermelhas parecem mata em meio às quaresmeiras roxas e acácias amarelas. Mas é uma casa, que lembra uma embarcação de madeira pousada em uma ruína de pedras para um jovem admirar as montanhas rochosas em um vale na região serrana do Rio de Janeiro. A história romanceada foi criada pelo arquiteto carioca Sergio Rodrigues ao projetar a casa de campo de 407 m², dividida em três pavimentos, para o cineasta Arthur Fontes, 44 anos, casado com a mexicana Gabriela Fontes, 28, que espera seu primeiro filho. 

A obra foi realizada no centro do terreno de 5.554 m², com acentuada inclinação, no ponto exato onde, do terraço, podem ser vistos os morros Elefante e Monte de Milho. “Como fiquei preocupado com os deslizamentos de terra provocados pelas chuvas, construí a base de alvenaria embaixo da casa toda feita de madeira pelo sistema SR2, desenvolvido por mim em 1960”, diz o arquiteto e consagrado designer de móveis. 

Implantada em terreno íngreme, a construção tem volumes e linhas retas modernistas e foi construída sobre base de alvenaria revestida de pedras (Foto: Marcos Antonio/Editora Globo)

O sistema SR2 consiste, basicamente, de módulos de 4 x 4 m pré-fabricados de madeira maciça e painéis de compensado naval que são montados na obra. Segundo Rodrigues, o projeto para Fontes marca uma nova fase de seu trabalho como arquiteto de estilo tropical. “Já fiz mais de 250 casas empregando esse sistema e ainda o Iate Clube de Brasília, que existe até hoje, a convite do ex-ministro Darcy Ribeiro. Desta vez, realizei uma nova experiência, que deu certo”, afirma Sergio. 

A novidade foi acrescentar a estrutura de vigas, pilares e ferragens para permitir grandes vãos livres com maior sustentação no projeto em que divide a autoria com a filha,Verônica Rodrigues, 51 anos. A cobertura curva de aço substituiu o telhado tradicional para integrar a construção ao bosque. “A base de alvenaria foi revestida com pedras para que, dentro de nossa historinha, fosse uma ruína onde a casa de madeira pousou”, diz o arquiteto, que instalou nesse pavimento de 148 m² duas suítes de hóspedes, a lavanderia e as dependências de empregada.

Desenhada pelo arquiteto, a estante de peroba-mica ocupa as paredes de dois módulos, da biblioteca e do home theater, embaixo da janela vertical, na face sul da casa. Possui painéis deslizantes nas prateleiras iluminadas por microlâmpadas. Poltrona Mole com pufe, de Sergio Rodrigues. Jogo antigo de mesa e cadeiras, da rua do Lavradio, e luminária de George Nelson, de Nova York (Foto: Marcos Antonio/Editora Globo)

As paredes do banheiro são de gesso acartonado revestido com azulejos mexicanos de cerâmica talavera.O piso é de perobamica. Para obter maior claridade, todos os vãos entre as colunas são fechados por vidros (Foto: Marcos Antonio/Editora Globo)

O acesso principal é pelo térreo de 198 m², todo feito de madeira, no qual ficam a cozinha, as salas de jantar e estar, a biblioteca, o home theater e mais uma suíte de hóspedes. Perpendicular a esse pavimento, o terraço de 40 m², suspenso por toras de jatobá, lembra um cais ou uma plataforma, aonde se chega pela sala. No andar superior de 87 m², o apartamento do casal tem quarto, escritório, banheiro, closet e mais uma sala, onde será instalado o quarto do bebê. “Eu já tinha admiração pelo mobiliário criado por Sergio. Quando vi a casa que ele fez para Regina Casé (também na serra fluminense), não tive dúvida: o quis como arquiteto. Foi uma bênção”, diz Arthur Fontes, sócio-fundador da Conspiração Filmes. “A casa parece um barco por causa da madeira e, ao mesmo tempo, um vagão de trem por causa da cobertura.”

O cineasta ficou fascinado com a montagem dos módulos de madeira, que foram encaixados um a um, deixando rasgos que criaram a iluminação zenital em vários pontos da sala. “A casa ficou aconchegante com toda essa matéria-prima. Tem um modernismo aparente por fora e, por dentro, a decoração mexicana não é minimalista e deu personalidade aos ambientes”, afirma Fontes. O acabamento dos interiores ficou a cargo de sua mulher, que é designer e trouxe 3 m³ de azulejos de cerâmica talavera do México para revestir a cozinha e os banheiros. Outra referência mexicana está no pavilhão de alvenaria (uma área de lazer com churrasqueira,
forno de pizza e sala de estar), com telhado de piaçava, construído em platô às margens do riacho. “Criamos a cobertura que lembra uma oca indígena e eles adoraram, porque existem construções parecidas no México, chamadas palapas”, diz Rodrigues. 

O living é composto de quatro módulos de 4 x 4 m, sustentados por colunas e vigas estruturais de madeira jatobá. À direita, o home theater possui sofás da Way Design.ATV está escondida pelo vaso com folhagem costela-de-adão. No pavimento superior, fica o apartamento do casal (Foto: Marcos Antonio/Editora Globo)

As paredes externas coloridas são características das obras do arquiteto, embora nem sempre os clientes aceitem a mistura ousada. “Em geral, o pessoal procura o escritório pela filosofia da construção descontraída, mas tem medo de cores. Aqui, o casal topou tudo e ajudou a escolhê-las”, diz Verônica. 

Sérgio Rodrigues afirma que a casa de madeira é tão durável quanto a de alvenaria, que ele também faz. “Atende às necessidades de países nórdicos ou tropicais, porque a madeira mantém o calor. Atualmente, a construção fica quase tão cara quanto uma de alvenaria, entre R$ 1.500 e R$ 2 mil o m². Se fosse industrializado, o sistema SR2 sairia mais barato”, afirma o arquiteto, que fabrica os módulos quase artesanalmente. "Eu uso a madeira como elemento construtivo porque estamos na maior floresta tropical do mundo. Por que não usar? É matéria-prima renovável. Ecologicamente, é perfeita. Basta plantá-la.”

As janelas basculantes ocupam toda a lateral de 4 m de largura na sala de estar com lareira de concreto pré-fabricada. O assoalho de peroba-mica possui sistema de aquecimento instalado embaixo.Os sofás feitos sob medida são do Arquivo Contemporâneo. Baú e peças rústicas comprados em viagem a Tiradentes, Minas Gerais.Abajur adquirido na rua do Lavradio, no Rio. Luminária de palha de buriti feita por Maneco Quinderé (Foto: Marcos Antonio/Editora Globo)

A cadeira Diz, de Sergio Rodrigues, tem lugar de destaque junto às janelas. Seis módulos de madeira rústica formam a mesa de centro, da Palapa Interiores.Tapete e almofadas da By Kamy.Vaso mexicano de cerâmica talavera (Foto: Marcos Antonio/Editora Globo)

O arquiteto Sergio Rodrigues, em sua premiada poltrona Mole, banhado pela iluminação zenital oriunda de rasgos deixados na montagem dos painéis de madeira do teto. O criador completa 80 anos em setembro e a criatura, 50 (Foto: Marcos Antonio/Editora Globo)

“Generoso, em vez de refestelar-se em sua poltrona fabulosa, continua ativo, não pára.” O elogio a Sergio Rodrigues, feito em 1991 pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa, pode ser repetido agora – ele segue inovando com as construções de madeira. Filho de Roberto Rodrigues, ilustrador e irmão do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, Sergio nasceu entre os bairros de Ipanema e Copacabana, no Rio. Ele diz que, quando estudava na Faculdade Nacional de Arquitetura, não imaginava que criaria móveis. “Sou apaixonado pela madeira desde garoto, quando freqüentava a marcenaria do meu tio-avô. Essa paixão fez com que eu virasse designer e me levou à arquitetura com madeira pré-fabricada”, afirma. Em 1957, Sergio rompeu com as linhas retas ditadas pelo modernismo da Bauhaus e criou a poltrona com pés robustos de madeira torneada e envolventes almofadas de couro. Nada mais sensual e brasileiro. Em 1961, a Mole foi premiada no Concurso Internacional do Móvel, em Cantu, na Itália. Até hoje faz sucesso aqui e no mundo.

As paredes externas são fechadas por painéis de compensado naval pintados com esmalte acetinado.O vermelho, tipo veneziana, esconde a área com isolamento térmico onde, no interior, fica a lareira. No terraço com deque de ipê e guarda-corpo de jatobá, móveis Estilo Ásia e almofadas Área. Saladeira Country Living (Foto: Marcos Antonio/Editora Globo)

A sala de jantar com pé-direito duplo fica ao lado da cozinha, revestida de cerâmica talavera. A parede à esquerda do passa-pratos foi decorada com ex-votos mexicanos. Cesta e bandeja vermelhas da Área Objetos.Mesa de baraúna do Antiquário Coliseum e cadeiras da rua do Lavradio. Armário comprado em Bichinho e banco em Tiradentes, cidades mineiras. Lustre de cristal da loja Bêta de Prata (Foto: Marcos Antonio/Editora Globo)

No quarto do casal, a cama, desenhada por Gabriela e feita pela Carpintaria Edu, é posicionada de frente para a janela com vista deslumbrante. Luminárias do projeto de iluminação de Maneco Quinderé. Roupa de cama Trousseau (Foto: Marcos Antonio/Editora Globo)

---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Mais matérias como esta em Notícias => Arquitetura.

A Revista Mais Construção agradece a sua visita. Muito obrigado!!!

Login

iCagenda - Calendar

Nenhum evento no calendário
Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Visitantes

130611
Hoje
Ontem
Esta Semana
Última Semana
Este Mês
Último Mês
Geral
689
652
5545
120384
21420
21342
130611

Seu IP: 54.163.39.19
20-01-2018